11 Febbraio 2026
Portogallo

“Paolo Fresu Passo a Passo. Semântica Sonora” é o novo livro de Francesco Cataldo Verrina (Kriterius Edizioni, 2026)

A obra investiga a vasta discografia de Paolo Fresu, radiografando seus traços mais marcantes sob os aspectos emocional, ambiental e musicológico, construindo passo a passo a carreira artística e as peculiaridades do homem e do músico que representa um unicum no universo do jazz italiano.

No panorama musical europeu, Paolo Fresu se destaca como uma figura polivalente e multitarefas, cuja trajetória existencial e artística se desenrola ao longo de três eixos inseparáveis: o do homem, do músico e do empreendedor. Nele coexistem o ardor do visionário, a disciplina do artesão do som e a sabedoria do prolífico semeador de ideias e coletor de consensos.

Nascido em Berchidda, pequena vila encravada nas dobras da Sardenha mais autêntica, Fresu soube transformar as inspirações de sua terra natal em um léxico musical universal. A infância, nutrida pelos sons da banda local e pelos silêncios eloquentes do campo, forjou uma alma sensível, inclinada à contemplação e à busca. Como escreveu Rilke: “a arte é a infância reencontrada por meios adultos”, e Paolo Fresu, através de seu instrumento, soube preservar e sublimar essa pureza originária. Fresu não é apenas um músico, mas um agente simbólico, um catalisador de processos identitários, um arquiteto de espaços estéticos compartilhados, uma espécie de dispositivo humano de ressonância cultural. No seu caso, o indivíduo se torna um médium, o corpo se traduz em vetor de transições simbólicas e a música transforma-se em um ato de ecologia social. Ele não se emancipa da marginalidade geográfica, mas a transfigura.

Berchidda nunca é um ponto de partida a ser superado, mas um epicentro de onde irradiar para um infinito “outro lugar”. Assim, Fresu encarna aquilo que Edward Said chamava de “intelectual orgânico”, capaz de atuar não apenas no campo estético, mas também no ético e político. Sua trajetória existencial não é linear, mas rizomática: ramifica-se, contamina-se e hibridiza-se. O jazz, para ele, não constitui um gênero, mas um método – um dispositivo epistemológico que permite pensar o mundo em termos de improvisação, escuta recíproca e negociação contínua. O trompete (ou o flugelhorn) não representa apenas um instrumento, mas uma prótese da alma, uma extensão sonora do eu que se torna linguagem coletiva. Fresu não toca o som, ele o habita, moldando-o como um artesão do silêncio, modulando-o como um demiurgo do tempo. O eixo antropológico de sua figura articula-se em torno de uma tensão constante entre enraizamento e abertura. Sua identidade não é monolítica, mas porosa, absorvente e em constante devir, regenerando-se continuamente na relação com o outro, no diálogo intercultural e na contaminação linguística. Em termos psicológicos, poderíamos falar de um “eu narrativo”, capaz de integrar múltiplas dimensões da experiência em uma trama coerente, mas nunca definitiva.

O músico de Berchidda atua como agente de coesão, facilitador de processos comunitários e promotor de bem-estar psicossocial por meio da cultura. Sua atividade não se limita à produção artística, mas se estende ao cuidado dos vínculos, à construção de redes e à criação de espaços compartilhados. No papel de empreendedor cultural, o trompetista sardo não se limita a gerir eventos, mas projeta ecologias simbólicas. O festival Time in Jazz não é um simples contêiner de concertos, mas um laboratório de cidadania estética e um experimento de regeneração territorial através da arte. Em uma época em que a cultura frequentemente se reduz a mero entretenimento, Fresu reivindica sua função maiêutica, ou seja, a capacidade de gerar consciência, educar o olhar e transformar o cenário interior e coletivo. Suas ações o levam a investir no território, construir redes e criar comunidades em torno da música. Nele, o homem, o músico e o empreendedor não são compartimentos estanques, mas vasos comunicantes de uma única vocação: tornar o mundo um lugar mais habitável por meio de uma arte expressa em múltiplas facetas. Como escrevia Hölderlin: “onde cresce o perigo, cresce também o que salva”. Seu modus operandi empresarial é impregnado de ethos: não busca apenas o lucro, mas a fertilidade simbólica. Nesse quadro, ele se apresenta como um curador de possibilidades, um alquimista do real que transforma o silício da marginalidade em ouro relacional. Sua visão é sistêmica, não linear, típica de quem pensa em termos de interconexões, sinergias e ressonâncias. Seu modelo corresponde ao da “permacultura”, um ecossistema em que cada elemento nutre e sustenta os demais.

Fresu torna-se assim um construtor de pontes entre o indizível e o compartilhável, entre o íntimo e o coletivo. Sua obra aparece como um ato de resistência poética contra a homogeneização, um convite a pensar a cultura não como adorno, mas como infraestrutura do humano. Como ele próprio afirmou: “produzir cultura não significa apenas gerar economia, mas promover o ser humano, antes mesmo daquilo que ele produz”. No conceito de “Som como sou, sou como som”, Fresu explicita uma verdade que permeia toda sua produção, onde a música não se configura como uma linguagem a dominar, mas como um microcosmo a habitar. Em termos fenomenológicos, poderíamos dizer que Fresu não “faz” música: ele é música. Para ele, o som nunca é neutro, mas sempre situado, incorporado e relacional. A assinatura estilística de Fresu baseia-se em uma poética da subtração, em um minimalismo expressivo que evita a exibição virtuosa para privilegiar a intensidade do detalhe, a pregnância do silêncio e a densidade da respiração. Nesse sentido, aproxima-se da lição de Miles Davis, mas filtrada por uma sensibilidade profundamente mediterrânea, imbuída de luz oblíqua, melancolia solar e memória arcaica. Suas frases revelam uma caligrafia da alma, uma escrita timbrística que se traduz em narrativa, confissão e invocação. A improvisação, para ele, não é um exercício de liberdade individual, mas um ato de responsabilidade coletiva, implicando escuta radical, suspensão do julgamento e abertura ao imprevisto. Em termos psicológicos, poderíamos defini-la como uma prática de “empatia musical”, uma experiência intersubjetiva em que os limites do eu se dissolvem para dar lugar a uma consciência plural. Como escrevia Merleau-Ponty: “a arte não duplica o mundo, mas faz com que ele exista”.

Essa visão relacional da arte se reflete também em sua incessante atividade de colaboração com artistas de todas as origens geográficas e estilísticas. Fresu tocou com jazzistas afro-americanos, músicos clássicos, cantautores, poetas, dançarinos e pintores. Cada encontro torna-se para ele uma oportunidade de metamorfose, um rito de passagem e um ato de hospitalidade simbólica. Nesse sentido, ele encarna o arquétipo do “bricoleur” de Lévi-Strauss, ou seja, aquele que constrói mundos a partir de fragmentos, transformando a contingência em forma e a alteridade em aliança. Sua trajetória musical, iniciada aos onze anos, alimentou-se de estudo rigoroso e encontros fulgurantes. Após os Conservatórios de Sassari e Cagliari, a metamorfose ocorre em Siena Jazz: o vernáculo afro-americano torna-se para o trompetista não apenas uma linguagem expressiva, mas uma filosofia de vida. Desde então, Fresu tem navegado pelos mares como um Ulisses moderno da pauta musical, colaborando com instrumentistas de todas as latitudes e participando de mais de quatrocentas e cinquenta sessões de gravação, das quais noventa sob seu próprio nome. No fundo, “uma única nota pode contar uma história infinita”, como ele mesmo afirma. E é exatamente nessa nota que se condensam a urgência expressiva, a nostalgia do silêncio e a vontade de impactar o real. Ao lado do músico, coexiste o homem de pensamento e palavra. Fresu também se aventura como escritor, autor de ensaios e contos em que reflete sobre o sentido da música, o papel do artista na sociedade e a necessidade de cultivar a emoção como antídoto à banalidade do cotidiano. Sua visão é humanista, inclusiva e profundamente ética. Não por acaso, recebeu um doutorado honoris causa em Psicologia Social pelo compromisso em promover a cultura como instrumento de coesão e bem-estar coletivo. Desconsiderando todas as semelhanças que certa crítica insiste em buscar, nesta análise objetiva de sua discografia, o trompetista emerge como uma figura fortemente caracterizada, com uma filigrana estética e sonora própria: um unicum no universo do jazz europeu. Resumindo, Paolo não é Miles Davis nem Chet Baker – Paolo é Fresu. Tertium non datur.